Texto extraído do livro "O Universo numa Casca de Noz", de Stephen Hawking
"A relatividade geral combina a dimensão temporária com as três dimensões espaciais para formar o que se chama espaço-tempo. A teoria incorpora os efeitos da gravidade, afirmando que a distribuição de matéria e energia no universo deforma e distorce o espaço-tempo, de maneira que já não é plano. Os objetos tentam mover-se em trajetórias retilíneas no espaço-tempo, mas como este está deformado, suas trajetórias parecem curvadas: movem-se como se estivessem afetados por um campo gravitacional.
Uma tosca analogia da situação, que não devemos tomar muito ao pé da letra, consiste em imaginar uma lâmina de borracha. Podemos depositar sobre ela uma bola grande que represente o Sol. O peso da bola afundará ligeiramente a lâmina e fará que esteja curvada nas proximidades do Sol. Agora se rodamos pequenas bolinhas sobre a lâmina, não a percorrerão em linha reta, mas sim girarão ao redor do objeto pesado, como os planetas orbitam ao redor do Sol.
A analogia é incompleta porque nela tão somente está curvada uma seção dimensional do espaço (a superfície da lâmina de borracha), mas o tempo fica sem perturbar, como na teoria newtoniana. Mas, na teoria da relatividade, que concorda com um grande número de experimentos, o tempo e o espaço estão inextricáveis entrelaçados. Não podemos curvar o espaço sem envolver deste modo o tempo, portanto, o tempo adquire uma forma. Ao curvar o tempo e o espaço, a relatividade geral os converte em participantes dinâmicos do que ocorre no universo, em lugar de considerá-los como um mero cenário passivo em que ocorrem os acontecimentos. Na teoria newtoniana, em que o tempo existia independentemente de todo o resto, podia-se perguntar: que fazia Deus antes de criar o universo? Como disse São Agustin, não deveríamos brincar com estas questões, como o homem que disse «estava preparando o inferno para que pusessem perguntas muito complicadas». É uma pergunta séria que a gente se expôs ao longo de todas as épocas. Segundo São Agustin, antes que Deus fizesse o céu e a Terra não fazia nada absolutamente. De fato, esta visão resulta muito próxima às idéias atuais.
Na relatividade geral, o tempo e o espaço não existem independentemente do universo ou separadamente um do outro. Estão definidos por medidas efetuadas dentro do universo, como o número de vibrações de um cristal de quartzo de um relógio ou a longitude de uma cinta métrica. É facilmente concebível que um tempo definido deste modo, no interior do universo, deve ter tido um valor mínimo ou um valor máximo —em outras palavras, um começo ou um final—. Não teria sentido perguntar o que ocorreu antes do começo ou depois do fim, porque tais tempos não estariam definidos."
Comento
Primeiro, se você não entendeu nada, dê uma lida neste artigo aqui. O texto não trata especificamente de Deus ou da criação, mas suas conclusões trazem reflexos no modo de como pensamos a origem de tudo. Muitos ainda pensam o tempo ao estilo newtoniano, um conduto contínuo, que começou no "infinito para trás" e acabará no "infinito para frente". No entanto, o tempo não é assim. O tempo como conhecemos, ou melhor, pelo qual somos capazes de conhecer, é intrinsicamente relacionado com o espaço. Em outros palavras: apenas existe tempo porque existe espaço; na verdade, tais são descritos como espaço-tempo, na física contemporânea. Como conclui o excerto, não há sentido em perguntar o que ocorreu antes do começo, por este tempo não estar definido.
Então, se o Universo foi, num "momento zero" criado por Deus, antes deste, por decorrência, não existia nada. Não existindo nada, não existia espaço ou tempo. Assim, a existência de Deus antes da existência do Universo (condição para que Ele o criasse) só é possível se Ele for um ser não compreendido pelo espaço-tempo, ou seja, que não tenha existência no espaço-tempo: seja adimensional. Este pensamento complica um pouco se se pensar que as dimensões do espaço-tempo (quatro, na verdade, possivelmente são dez ou onze, mas apenas quatro são perceptíveis) abrangem todo nosso universo. Isto implica perguntas irrespondíveis como "Onde está Deus?" ou "O que Deus está fazendo?", pois, se for adimensional, Deus não está em parte alguma, não podendo fazer qualquer coisa.
Pensemos ao inverso: Deus não é adimensional e esteve presente na Criação, como está hoje, em todo espaço criado. Admitamos também que Ele poderia criar tudo e fazer tudo, de acordo com sua vontade. Porém, espere um pouco: isso significa a existência de um espaço, pois para Deus estar presente, deve estar presente em algum lugar. Mais: se ele poderia fazer tudo de acordo com sua vontade, é necessário que existisse tempo, para poder cogitar uma vontade e realizá-la. Entretando, se, para Deus criar o Universo, é preciso que o espaço-tempo já existisse, então o Universo já existia, já que aquele apenas existe neste. Desta feita, o que Ele criou?
Em 17/11/2009:
Acho que há falhas estruturais nos conclusões que tive. Pois apenas comparei duas conclusões possíveis de duas teorias distintais, uma Física e outra Religiosa, sem me ater a todo raciocínio prévia que as embasam, às diferenças conceituais que as mesmas palavras podem ter. Por exemplo, não posso admitir que um pressuposto "momento zero" tenha o mesmo significa na Física Moderna e na religião cristã, nem que o conceito de "Origem" seja idêntico em ambas.

